Curso – Introdução à obra de Virginia Woolf: Políticas do Modernismo

Date: 26 de julho de 2018
Time: 19:00  to  21:00

Cinco encontros: 26 de julho, 02, 09, 16, 23 de agosto
Quando? Quintas-feiras, às 19h
Investimento total: R$ 150,00 | ou 3x R$ 50,00
Onde? Na Tapera Taperá (Av. São Luís, 187, 2º andar, loja 29)

Clique aqui para se inscrever.

Para mais informações, contatar: cursos@taperatapera.com.br

APRESENTAÇÃO:
Esse curso foi pensado como um espaço de discussão dos principais romances da escritora britânica Virginia Woolf, publicados entre o final da década de 1920 e início dos anos 1930, à luz da associação de seus aspectos formais e a seleção de seus materiais com o processo sócio-histórico do qual emergem. Cada encontro abordará um romance, tendo como método de condução a leitura atenta de excertos escolhidos pelo ministrante e pelos participantes de tal modo que as exposições iniciais não sirvam como apresentações de leituras fechadas, mas como subsídios para reflexões que consolidem uma familiaridade com a autora e construam hipóteses interpretativas coletivas e individuais. Tal curso se justifica não apenas devido à qualidade das obras ou à influência que Woolf teve sobre boa parte da literatura produzida ao longo do século XX, mas também e sobretudo graças à atualidade que muitos de seus assuntos – notadamente as questões sobre modernidade, patriarcado, representação, sexualidade e a crise do sujeito – ganharam nos debates políticos contemporâneos. Embora a referência primeira e prioritária seja o original em inglês dos romances e ensaios, o que recomenda algum conhecimento da língua inglesa para acompanhar o curso, também se fará uso da análise contrastiva com traduções para o português, significando que o público alvo do curso é o mais amplo possível.

CRONOGRAMA DE AULAS:

Encontro 1 | 26 / 07: Apresentação do curso – vida e obra de Virginia Woolf em meio ao modernismo europeu dos anos 1920 e 1930.

Nesse dia iremos focalizar a formação (contexto sócio-histórico) do projeto (obra) de Virginia Woolf. Isso abrange não somente suas referências, notadamente as inovações dos pintores impressionistas franceses, a leitura pós-impressionista de Van Gogh daquele mesmo processo e que a impactou profundamente, as adaptações literárias do impressionismo de Joseph Conrad para o romance, o estilo de Marcel Proust, o foco narrativo russo de autores como Dostoiévski, mas também, e sobretudo, as estruturas de sentimento do contexto do entregueras europeu que permeiam e determinam seus olhares sobre a matéria inglesa e suas tentativas de figurar a condição humana. Além disso, iremos discutir as antinomias que perpassam seu ponto de vista do que seria uma arte realmente moderna e as implicações políticas e estéticas que tal postura subjaz.

Encontro 2 | 02/08: Mrs Dalloway (1925) – impressionismo, fluxo de consciência e modernidade.

Este romance é frequentemente enxergado como a primeira grande realização da romancista, em grande medida devido ao fato de ser aqui que seu estilo, seus principais temas e técnicas se consolidam. Os pensamentos disparados pelas impressões súbitas de diferentes personagens em meio ao movimento dos aviões, publicidade e carros da Londres dos anos 1920 coordenados com o experimentalismo temporal narrativo eleva definitivamente a modernidade à forma e ao conteúdo de uma literatura de pretensão moderna.

Encontro 3 | 09/08: Ao Farol (1927) – condensação temporal, dilemas representacionais e o mal-estar na civilização.

Nesse encontro faremos um relativamente breve excurso na filosofia contemporânea – seguindo a tradição de certo perspectivismo moderno que vai de Kant passa por Nietzsche, Heidegger, Foucault e chega até Derrida – para pensarmos as melhores críticas à representação e suas contradições irresolvíveis como um ângulo politicamente fundada no longo século XX. Tal percurso teórico se justificaria pelo engajamento de Woolf com certa tematização da representação da irrepresentabilidade e da dificuldade da comunicação, ou narração, em um universo de aparente perda de significados e valores comuns. Aqui encontraremos ao menos duas possibilidades de explicação para o que Adorno chamou de a “deterioração da capacidade de apreender a realidade”, sendo o romance em si menos uma tentativa de resposta à questão do que a criação de uma imagem literária do problema sem deixar de explicitar muitas das tensões que o envolve. É nesse sentido que observamos que muitos dos procedimentos empregados para dar conta desse desafio de formalização estética foram, de certa maneira, traduzidos por Freud em A Interpretação dos Sonhos – condensação, fusão, superposição, substituição, alusão, metáfora, metonímia –, o que implica em um número de rupturas com a prosa realista de até então com o objetivo de se figurar algo que resiste à representação. Será sugerido que isto tudo advém de um crescente, mas ainda difuso, sentimento de desconforto com os resultados da modernização da vida e da sociedade.

Encontro 4 | 16/08: Orlando: uma biografia (1928): modernismo, valências da identidade e patriarcado capitalista. 

Pode-se dizer, sem muito medo de errar, que Orlando é um dos romances de maior atualidade para se pensar a contemporaneidade. Entre outros motivos porque ele já foi lido como uma espécie de antecipação da era da política das identidades e graças à sua forma híbrida que, às vezes, lembra um pastiche pós-moderno. Porém, as diferenças em relação a como vivemos as identidades sexuais e de gênero hoje em dia também são reveladoras de um tipo muito específico de uma radicalidade identitária perdida e mais centrada na transformação completa do mundo como um todo do que na reforma do mundo para uma melhor integração a ele. Os elementos constitutivos da narrativa – o tempo, o espaço, o narrador, as personagens e o enredo – se articulam de modo a construir um dinamismo do Eu que impede a estabilização ou afirmação identitária tão conhecida por nós no século XXI, oferecendo, assim, uma crítica muito mais feroz aos ditames do patriarcado capitalista em todas as suas expressões. Estaria precisamente nessa configuração formal e temática o seu caráter mais puramente modernista ou no ataque frontal às convenções literárias e lógicas estabelecidas por uma tradição cultural, política e econômica, na sua quase totalidade, erigida e operada por homens? Seria mesmo a instituição cultural algo unissex? Essas são algumas questões que Orlando procura responder ainda que muitas vezes indiretamente.

Encontro 5 | 23/08: As ondas (1931): crise da cultura burguesa, prelúdio de uma calamidade triunfal e reprodutibilidade técnica. 

As Ondas ser considerado o romance mais experimental de Woolf é quase um consenso dentro da fortuna crítica da obra da autora. Com efeito, uma das hipóteses de trabalho atribui à impossibilidade de ilusões com a civilização liberal burguesa no pós-crise de 1929 e na antessala do apocalipse do alastramento do fascismo pelo continente europeu o salto imaginativo que garantiu a redação de um romance que também pode ser lido como uma peça, um poema ou até mesmo como música devido ao seu arranjo e ao seu ritmo repetitivo e lírico. Aqui, ao que parece, não se trata de uma celebração tampouco de uma mera rejeição da individualidade, mas de uma pergunta acerca das suas condições de possibilidade, sobretudo tendo em vista o avanço da cultura de massa, isto é, a radicalização da mercantilização da arte e da vida de maneira geral, e a desagregação social com o processo acelerado de entropia subjetiva e objetiva da existência. Novamente buscaremos sugerir que nesse romance se estrutura um ponto de vista em relação às contradições do movimento da história vivenciadas de modo cada vez mais trágico.

Referências Bibliográficas:

Crítica geral:

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Ensaios de Virginia Woolf:

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Sobre o professor: 
Lindberg S. Campos Filho

Graduado em letras português e inglês é mestre em letras, tendo feito estágio de pesquisa no King’s College London e na Duke University nos Estados Unidos sob supervisão de Fredric Jameson. Atualmente faz doutorado também em letras e está preparando um livro sobre Virginia Woolf, Bertolt Brecht e modernismo. Trabalha com a autora há pelo menos 6 anos, focalizando em suas obras mais conhecidas dos anos 1920 (a saber, Mrs Dalloway, 1925; Ao Farol, 1927; Orlando, 1928 e As Ondas, 1931).

Link para acessar a sua dissertação de mestrado:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-17102017-150721/pt-br.php

OBSERVAÇÕES 

1. Vagas confirmadas apenas com pagamento.

2. Política de devolução:

Se houver cancelamento até o dia 19/07, será cobrada multa de 10% do valor do curso. Em caso de desistência entre o dia 20/07 e 25/07, a multa será de 40% do valor do curso. Desistências até dia 27/08 (após a primeira aula) serão reembolsadas em 50%. Os valores serão devolvidos via depósito bancário a ser feito em conta de titularidade do participante inscrito.

Em casos excepcionais, por circunstâncias imprevistas, se um curso eventualmente for cancelado, todos os valores pagos serão integralmente restituídos.

3. Certificado de conclusão:

Os alunos devem participar no mínimo de 75% do curso para pedir o certificado de conclusão do curso, que será emitido em até 5 dias úteis após o término do mesmo.

 

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